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Sal e salinas

O trabalho nas salinas fluminenses é uma das ocupações humanas mais antigas da região, as relações comerciais e sociais vinculadas à produção do sal fazem parte da história de Cabo Frio e das cidades ao seu redor. O sal da região abasteceu o sul e o sudeste brasileiro, desde o início da colonização europeia no Brasil. Além da produção em salinas artificiais, o sal podia ser encontrado naturalmente cristalizado nas margens da Lagoa, em grandes pedras e muito alvo.

Em comparação com o parque salineiro do nordeste, a superioridade do teor salino fluminense se deve à influência da topografia da Laguna de Araruama, que funciona como um grande reservatório cristalizador, com mais de 35 km de comprimento e 20 km de largura. Por ser uma área fechada com somente um canal de acesso ao mar – o Canal do Itajuru, com profundidade média de 2,5 metros- sem receber grande volume de água doce, é considerada um reservatório natural de águas muito salgadas, e a concentração dos cristais aumenta aos poucos, à medida que se afasta do mar.

A produção do sal era o maior recurso da região. No entanto, sua abundância e comercialização no Brasil Colônia foram proibidas, já que Portugal, também produtor, impedia a colônia de extrair o próprio sal, obrigando a população brasileira a consumir o produto importado. No período de 1690 a 1691, duas cartas régias proibiam o uso de outro sal que não o transportado do Reino.

Mesmo com a proibição, as salinas da região continuaram exportando até que, em 1725 a mando dos administradores do contrato da capitania do Rio, foram seqüestrados tanto o sal, quanto as salinas e os bens daqueles que o negociavam. Para executar tal tarefa, o Governador Luiz Vais Monteiro, mandou a Cabo Frio embarcações para apreensão de todo o sal existente. Tal ação não pode ser executada porque havia uma Lei de 28-08-1720, que proibia os Vice-Reis, Capitães-Generais e o Governador, de mandarem fazer seqüestros nas fazendas e moradias sem autorização da Justiça.

A população local recorreu ao El Rei D.João V, por intermédio da Câmara Municipal, e foi atendida. A partir da resposta Del Rei as águas da Lagoa de Araruama foram franqueadas a todos para a colheita do Sal. Com a expansão da pecuária e da colonização no interior do Brasil, devido à mineração das Minas Gerais, o consumo do sal crescia ano após ano. No final do séc XVII, o governo português, não tendo mais condições de atender a demanda, permitiu que contratadores explorassem as salinas tanto do Nordeste como as de Cabo Frio.

Em 1797 haviam nove salinas naturais em Cabo Frio: a primeira na Ponta do Baixo, a segunda no local denominado Ponta do Chiqueiro, a terceira na Ponta do Costa, a quarta na Ponta de Perinas, a quinta, sexta e sétima na Ponta de Massambaba, a oitava na Ponta da Caieira e a nona na Ponta do Fula.

Em 22 de maio de 1824 D. Pedro I deu autorização a Luiz Lindenberg, oficial alemão a seu serviço, para escolher na restinga em aforamento um terreno para salinas, isentando-o de foros. Assim foi construída a primeira salina em Cabo Frio, no lugar denominado Perinas, sendo considerada a primeira indústria de sal no Brasil.

Uma das mais antigas salinas de Cabo Frio, a Salina da Conceição, data de 1852. Quatro anos depois, em 1856, além das Salinas de Joaquim Alves Nogueira da Silva, existiam duas companhias, uma dirigida por Julio Leipsik e a outra pelo Dr. Miguel Bouiteux.

No período de 1859 a 1868 as salinas estacionaram e a exploração do sal na região quase foi abandonada. Várias tentativas do emprego de novas técnicas na produção do sal foram realizadas no período de 1872 a 1885, sem grande sucesso.

Somente após 1895, com o emprego dos moinhos de vento, a produção do sal em Cabo Frio tomou novo impulso, auxiliado pela supressão da cabotagem estrangeira e revigorado com a taxação aduaneira desde 1902. Apesar de grande crescimento, somente após a Primeira Grande Guerra é que a industria do sal começa a se desenvolver na região.

Na década de 50, a indústria salineira era a principal fonte de renda das cidades de Cabo Frio, Araruama, e São Pedro da Aldeia. O auge do desenvolvimento do setor ocorreu na década de 60, com a instalação das duas usinas de beneficiamento de sal em Cabo Frio e a construção do complexo industrial da Cia. Nacional de Álcalis, no antigo distrito de Arraial do Cabo.

O grande crescimento da região atraiu trabalhadores de outras regiões do Brasil. No entanto, o parque salineiro desde a década de 90 dá sinais de exaustão, com baixa produção de safra, aumento da concorrência com o produto nordestino, além dos impostos cobrados para produção, que desmotivam os salineiros. Outro fator que influencia na diminuição do parque salineiro da região é a especulação imobiliária às margens da Lagoa de Araruama.

Preservar o parque salineiro restante contribuirá para o desenvolvimento da indústria do turismo sustentável, pois, as pitorescas salinas e seus cataventos compõem um dos maiores encantos da região.

É importante lembrar que as salinas estão inseridas num contexto sócio-econômico, contribuindo para individualizar a beleza e a paisagem das margens e enseadas da região, traduzindo num fator turístico importante onde se conjugam os aspectos socioculturais e ambientais.

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